Exposição ao vácuo
Vacuum
Uma anatomia da morte a baixa pressão
Um corpo desprotegido no vácuo não explode nem congela em bloco. Ferve, por instantes, à temperatura que já tem. O que se segue leva cerca de um minuto — e depois muito tempo.
Retrata a morte de um ser humano. As imagens são reconstruções especulativas; a fisiologia não.
Role para iniciar a descida
ParteI
Ebulismo
T + 00:00 → 00:10
A água do seu sangue lembra-se de que sempre foi um gás.
Abaixo de cerca de 6,3 quilopascais — o limite de Armstrong — a água ferve à temperatura do corpo. A pressão não precisa de chegar a zero para isso; basta que caia o suficiente, e cai em menos de um segundo. O vapor sai primeiro de onde o corpo está mais húmido e menos fechado: a boca, os seios nasais, a superfície dos olhos.
Leituras de instrumentos desta fase. Ambiente: 101.3 kPa a descer para 0 kPa. PO₂ arterial: 95 mmHg a descer para 12 mmHg. Tecido mole: 0 % vol a subir para 14 % vol. Consciência: TRUE.


ParteII
Anóxia
T + 00:10 → 00:15
O debater-se acaba antes da queda.
Os pulmões já não servem; a esta pressão esvaziam-se em vez de encher, e suster a respiração apenas os rasga. Resta o oxigénio já dissolvido no sangue entre os pulmões e o cérebro — nove segundos, talvez quinze. Acaba a meio do movimento. O corpo não abranda. Deixa apenas de ser conduzido.
Leituras de instrumentos desta fase. O₂ cerebral: 9 s a descer para 0 s. Resposta motora: ACTIVE a mudar para NIL. Ambiente: 0 kPa. Consciência: TRUE a mudar para FALSE.

ParteIII
Edema e geada
T + 00:15 → 01:00
Não está a congelar. Está a evaporar-se, e o que parte leva o calor consigo.
O vácuo é um isolante excelente — não há nada para onde conduzir o calor. Por isso o corpo arrefece pela única via que lhe resta, fervendo a própria humidade, e a superfície cobre-se de geada enquanto o tecido por baixo continua a inchar. Cerca do dobro do seu volume, contido pelo fato. O frio é um sintoma da secagem, não a causa da morte.
Leituras de instrumentos desta fase. Tecido mole: 14 % vol a subir para 100 % vol. Temp. superfície: 33 °C a descer para -18.4 °C. Sublimação: 0 g/min a subir para 2.4 g/min. Ritmo: ASYSTOLE.

ParteIV
E para além do infinito
T + ANOS
Aqui fora não vem nada desfazê-lo.
A decomposição é algo que os seres vivos fazem a um corpo, e aqui não há nenhum. Nem micróbios, nem oxigénio, nem clima, nem água. A dessecação completa-se e depois pára, porque não resta nada para remover nem processo que o remova. O que fica mantém a forma, mantém o rumo, e mantém ambos durante mais tempo do que a palavra «anos» tem utilidade.

1 : 4 : 9
Chegará a algum lado, um dia, inteiramente inalterado.
Aqui fora nada é denso o bastante para o erodir, quente o bastante para o descongelar, ou vivo o bastante para o consumir. A preservação não é algo que se faça ao corpo; é simplesmente o que acontece quando falta todo o processo que o desfaria. O fato durará mais do que a missão, do que a agência que a lançou e, muito provavelmente, do que a língua em que foram escritas as suas listas de verificação.
